terça-feira, 11 de abril de 2017

Um caso ocorrido num reality show em decadência na rede de televisão outrora mais vista no país e hoje desesperada pelas glórias passadas, causou um tipo de comoção na sociedade brasileira. Apesar de eu ter minhas desconfianças de que tudo é uma encenação para dar Ibope, não deixo de achar que seja algo interessante. O que aconteceu, no geral, é que por 1 mês ou 2 (não tenho certeza) os telespectadores desse programa estiveram diante de um relacionamento abusivo e doentio, onde uma garota profundamente infantil se relacionava com um homem mais velho, em termos de idade, de vivências, de maturidade, e baseavam tudo num círculo vicioso. Ela agia como criança, ele tentava apaziguar, ela batia mais o pé, ele explodia, montado no "Médico e o Monstro", com uma mudança repentina de comportamento e atitude. Nisso, gritos, agressões verbais, agressões psicológicas, intimidação ocorriam e depois de determinado tempo, eles faziam sexo apaixonado, em qualquer lugar que estivesse disponível.

Isso na verdade é extremamente comum. As pessoas no geral não têm mais paciência umas com as outras e gostam de liberar a raiva que a impaciência provoca da pior forma possível, através de agressões. Eu particularmente acho que homens têm uma tendência a ter menos paciência, e isso pode ser por muitas razões, mas a que mais salta aos olhos é que é dito sem nenhum tipo de restrição ou cuidado, que mulheres são naturalmente mais chatas, mais pentelhas, mais irritantes. Seja porque os hormônios mudam, seja porque é a natureza delas, eu sinceramente não sei que argumento está por detrás desse tipo de mito. Então quando um homem é impaciente com uma mulher e se irrita a ponto de explodir, numa expansão de raiva e agressão, é totalmente compreensível. Já cansei de escutar em todo lugar, em todo tipo de situação, um homem dizer para o outro "é, mulher é fogo mesmo". 

Homem pelo jeito não "é fogo". Homem pelo jeito é o ser mais fácil de conviver no universo. Só que não. O que eu vejo é que homens olham para mulheres com o olhar de desdém e pensam "você é louca" sempre que ela questiona qualquer coisa. Nada pode incomodar uma mulher, porque se ela for tirar satisfação ela simplesmente é desacreditada, apenas por ser mulher e parte-se do princípio que toda mulher é louca.

Óbvio que não é assim. E óbvio que isso é uma construção social absolutamente nociva para as mulheres. Tanto que feminista, que questiona tudo, ganha apelidos cruéis e pejorativos como feminazi, sapatão, louca desocupada, entre muitos outros. Vale salientar que eu não sei se me encaixo como feminista, porque para mim definir é limitar sim, e muita coisa que eu penso e no que acredito está fora das cartilhas feministas. Portanto, as feministas não me consideram uma delas. Mas no fim das contas somos todas mulheres. Acredito que essa divisão entre mulheres "normais" e feministas é algo como a tática dividir e conquistar. Quando uma feminista me pergunta se eu sou uma delas e eu respondo com minhas ideias, e consequentemente ela me coloca de fora de seu grupo, ela não percebe que nos divide, e que quando nos divide, nos enfraquece.

Este enfraquecimento causa coisas como esse caso do reality show (o caso como exemplo, não necessariamente ele como sendo verdade). Causa a noção generalizada de que mulher que se incomoda e vai lá questionar, é feminazi-louca-desocupada. Só que não é assim. Eu vivo a situação de um homem que não consegue falar comigo se não for usando um tom alto de voz, claramente intimidador, me desacreditando, rebaixando o que eu penso como se eu fosse uma criança incapaz de dar uma opinião coerente ou válida. E quando eu o questiono sobre o seu comportamento ele sempre me responde: quem tá sendo intimidador aqui? Quem tá falando alto? você é louca, você vê agressão em tudo.

Eu acho que mulher nenhuma deveria viver assim Eu acho que ser humano nenhum deveria viver assim. Porque essa luta é humana, não somente feminina. Conheço homens que são engolidos por suas mulheres e se transformam em um fiapo assustado da pessoa que um dia ele foi. Acontece é que estatisticamente isso acontece menos, só isso. Ou é estatisticamente menos conhecido. Muitos homens se sentem muito pressionados a jamais falarem da violência que sofrem em casa porque a sociedade (sim, machista!) vai fazer dele uma chacota ao invés de uma vítima. Isso é muito injusto. E as feministas deveriam ver isso, deveriam abrir sua visão não somente para a mulher vítima, mas para o ser humano vítima. De nada vale qualquer luta se não for pelo bem de todos. O patriarcado também faz muito homem sofrer e diferente da mulher, não há quem o defenda. Esse tipo de opinião já me coloca no inferno das feministas.

Então, voltando às agressões que mulheres sofrem todos os dias em seus relacionamentos como esse descrito na TV. Acredito que eu tenho escolha. Posso simplesmente sentar com meu companheiro, reclamar de seu comportamento, exigir mudanças, e, se nada disso der certo, terminar. Mas poucos casos são assim. A maioria não pode ter esse diálogo com seu companheiro, senão é agredida ainda mais. Muitas dependem do companheiro e sabem que se questionar, pode ficar sem o que comer ou sem abrigo. Neste caso, muita gente questiona "por que não vai trabalhar então?". A resposta é simples e eu sei qual é porque eu vejo isso em muita gente perto de mim: a mulher é terminantemente proibida de trabalhar, estudar, qualquer coisa que a ponha numa situação de escolha. Tenho várias familiares que vivem isso e que são constantemente ameaçadas caso pensem em desobedecer. É fácil dizer "ah, mas só obedece porque quer". Mas nos casos que conheço os homens em questão são armados e possuem influência em meios onde matar faz parte do dia a dia. 

Por fim, a grande maioria de mulheres agredidas em casa e em situação de risco sabe que terminar o relacionamento é declarar sua própria pena de morte. É insano querer ignorar os números de mulheres mortas por seus ex companheiros porque decidiram pôr fim a um círculo vicioso de agressão-reconciliação-agressão. A questão das feministas que me enquadram no grupo de mulheres submissas ao patriarcado opressor só porque não penso exatamente como elas deveria ser menos ideal e mais prático. A sociedade precisa mudar? Sim, precisa. Deve haver uma desconstrução das ideias que permeiam nosso dia a dia para a construção de outras melhores, que façam a mulher ter mais dignidade no cenário social? Sim, claro. Mas tem que ser feito algo no âmbito prático agora, para ontem. As feministas deveriam parar de caçar pelas redes de comunicação qualquer coisa que achem ofensivo e ir direto ao poder público exigir mudanças reais em como essas mulheres são atendidas. É lá onde elas deveriam gritar, fazer textão, fazer manifestação, tirar a camisa e mostrar os peitos, para as pessoas que fazem leis nesse país, que abrem secretarias que cuidam do bem estar da mulher que está em risco, que promove ações sociais, que abre delegacias da mulher. Porque existe muito serviço para a mulher agredida, mas ele ainda é muito ineficaz, cheio de furos e acaba deixando a mulher ainda bastante desprotegida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário