terça-feira, 11 de abril de 2017

Um caso ocorrido num reality show em decadência na rede de televisão outrora mais vista no país e hoje desesperada pelas glórias passadas, causou um tipo de comoção na sociedade brasileira. Apesar de eu ter minhas desconfianças de que tudo é uma encenação para dar Ibope, não deixo de achar que seja algo interessante. O que aconteceu, no geral, é que por 1 mês ou 2 (não tenho certeza) os telespectadores desse programa estiveram diante de um relacionamento abusivo e doentio, onde uma garota profundamente infantil se relacionava com um homem mais velho, em termos de idade, de vivências, de maturidade, e baseavam tudo num círculo vicioso. Ela agia como criança, ele tentava apaziguar, ela batia mais o pé, ele explodia, montado no "Médico e o Monstro", com uma mudança repentina de comportamento e atitude. Nisso, gritos, agressões verbais, agressões psicológicas, intimidação ocorriam e depois de determinado tempo, eles faziam sexo apaixonado, em qualquer lugar que estivesse disponível.

Isso na verdade é extremamente comum. As pessoas no geral não têm mais paciência umas com as outras e gostam de liberar a raiva que a impaciência provoca da pior forma possível, através de agressões. Eu particularmente acho que homens têm uma tendência a ter menos paciência, e isso pode ser por muitas razões, mas a que mais salta aos olhos é que é dito sem nenhum tipo de restrição ou cuidado, que mulheres são naturalmente mais chatas, mais pentelhas, mais irritantes. Seja porque os hormônios mudam, seja porque é a natureza delas, eu sinceramente não sei que argumento está por detrás desse tipo de mito. Então quando um homem é impaciente com uma mulher e se irrita a ponto de explodir, numa expansão de raiva e agressão, é totalmente compreensível. Já cansei de escutar em todo lugar, em todo tipo de situação, um homem dizer para o outro "é, mulher é fogo mesmo". 

Homem pelo jeito não "é fogo". Homem pelo jeito é o ser mais fácil de conviver no universo. Só que não. O que eu vejo é que homens olham para mulheres com o olhar de desdém e pensam "você é louca" sempre que ela questiona qualquer coisa. Nada pode incomodar uma mulher, porque se ela for tirar satisfação ela simplesmente é desacreditada, apenas por ser mulher e parte-se do princípio que toda mulher é louca.

Óbvio que não é assim. E óbvio que isso é uma construção social absolutamente nociva para as mulheres. Tanto que feminista, que questiona tudo, ganha apelidos cruéis e pejorativos como feminazi, sapatão, louca desocupada, entre muitos outros. Vale salientar que eu não sei se me encaixo como feminista, porque para mim definir é limitar sim, e muita coisa que eu penso e no que acredito está fora das cartilhas feministas. Portanto, as feministas não me consideram uma delas. Mas no fim das contas somos todas mulheres. Acredito que essa divisão entre mulheres "normais" e feministas é algo como a tática dividir e conquistar. Quando uma feminista me pergunta se eu sou uma delas e eu respondo com minhas ideias, e consequentemente ela me coloca de fora de seu grupo, ela não percebe que nos divide, e que quando nos divide, nos enfraquece.

Este enfraquecimento causa coisas como esse caso do reality show (o caso como exemplo, não necessariamente ele como sendo verdade). Causa a noção generalizada de que mulher que se incomoda e vai lá questionar, é feminazi-louca-desocupada. Só que não é assim. Eu vivo a situação de um homem que não consegue falar comigo se não for usando um tom alto de voz, claramente intimidador, me desacreditando, rebaixando o que eu penso como se eu fosse uma criança incapaz de dar uma opinião coerente ou válida. E quando eu o questiono sobre o seu comportamento ele sempre me responde: quem tá sendo intimidador aqui? Quem tá falando alto? você é louca, você vê agressão em tudo.

Eu acho que mulher nenhuma deveria viver assim Eu acho que ser humano nenhum deveria viver assim. Porque essa luta é humana, não somente feminina. Conheço homens que são engolidos por suas mulheres e se transformam em um fiapo assustado da pessoa que um dia ele foi. Acontece é que estatisticamente isso acontece menos, só isso. Ou é estatisticamente menos conhecido. Muitos homens se sentem muito pressionados a jamais falarem da violência que sofrem em casa porque a sociedade (sim, machista!) vai fazer dele uma chacota ao invés de uma vítima. Isso é muito injusto. E as feministas deveriam ver isso, deveriam abrir sua visão não somente para a mulher vítima, mas para o ser humano vítima. De nada vale qualquer luta se não for pelo bem de todos. O patriarcado também faz muito homem sofrer e diferente da mulher, não há quem o defenda. Esse tipo de opinião já me coloca no inferno das feministas.

Então, voltando às agressões que mulheres sofrem todos os dias em seus relacionamentos como esse descrito na TV. Acredito que eu tenho escolha. Posso simplesmente sentar com meu companheiro, reclamar de seu comportamento, exigir mudanças, e, se nada disso der certo, terminar. Mas poucos casos são assim. A maioria não pode ter esse diálogo com seu companheiro, senão é agredida ainda mais. Muitas dependem do companheiro e sabem que se questionar, pode ficar sem o que comer ou sem abrigo. Neste caso, muita gente questiona "por que não vai trabalhar então?". A resposta é simples e eu sei qual é porque eu vejo isso em muita gente perto de mim: a mulher é terminantemente proibida de trabalhar, estudar, qualquer coisa que a ponha numa situação de escolha. Tenho várias familiares que vivem isso e que são constantemente ameaçadas caso pensem em desobedecer. É fácil dizer "ah, mas só obedece porque quer". Mas nos casos que conheço os homens em questão são armados e possuem influência em meios onde matar faz parte do dia a dia. 

Por fim, a grande maioria de mulheres agredidas em casa e em situação de risco sabe que terminar o relacionamento é declarar sua própria pena de morte. É insano querer ignorar os números de mulheres mortas por seus ex companheiros porque decidiram pôr fim a um círculo vicioso de agressão-reconciliação-agressão. A questão das feministas que me enquadram no grupo de mulheres submissas ao patriarcado opressor só porque não penso exatamente como elas deveria ser menos ideal e mais prático. A sociedade precisa mudar? Sim, precisa. Deve haver uma desconstrução das ideias que permeiam nosso dia a dia para a construção de outras melhores, que façam a mulher ter mais dignidade no cenário social? Sim, claro. Mas tem que ser feito algo no âmbito prático agora, para ontem. As feministas deveriam parar de caçar pelas redes de comunicação qualquer coisa que achem ofensivo e ir direto ao poder público exigir mudanças reais em como essas mulheres são atendidas. É lá onde elas deveriam gritar, fazer textão, fazer manifestação, tirar a camisa e mostrar os peitos, para as pessoas que fazem leis nesse país, que abrem secretarias que cuidam do bem estar da mulher que está em risco, que promove ações sociais, que abre delegacias da mulher. Porque existe muito serviço para a mulher agredida, mas ele ainda é muito ineficaz, cheio de furos e acaba deixando a mulher ainda bastante desprotegida.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A vida é boa até mesmo para quem não sabe aproveitar. Eu sou a prova disso. Só comecei a dar valor à vida agora, nos meus 29 anos. Não sei o que mudou em mim de uma hora para outra, que estalo foi esse, que coisa destravou. O que sei é que hoje eu vejo beleza em tudo, apesar de continuar com tanto medo. O que a vida faz com as pessoas naturalmente felizes? Normalmente tem inveja e aplica nelas dolorosas provações como se fosse pecado gostar das coisas como elas são, pensando sempre construtivamente como elas podem ficar melhor.
Fui uma desistente minha vida inteira e agora vou novamente recomeçar.Há 6 meses atrás eu me trancava na escuridão repetindo sem parar que eu era uma perdedora. Agora eu só consigo pensar nas vitórias que terei no futuro próximo, nas vitórias que acabei de ter. Parece que nada mais merece tanto meu sofrimento, minha angústia, porque há muitas outras coisas que merecem meu entusiasmo.
Há alguns dias eu estive brava, isso eu não nego. Me sentia sozinha em várias relações que tenho na vida. Até que eu entendi que quem quer me deixar sozinha numa relação, que termine ela, que vá embora logo de uma vez. Foi o que eu fiz com minha mãe, ontem fiz com meu pai, quando ele chacotou da minha insatisfaçãoe da minha tristeza diante do seu descaso, da sua falta de educação quando me recebe, dando atenção a tudo, menos a mim.
Então havia Johnny. Acho que ele estava sendo uma pessoa insuportável porque ele estava infeliz. Não infeliz conosco, mas consigo mesmo. Ele sempre sorria, sempre brincava, mas eu via algo morrendo dentro dele, eu via a angústia e o sentimento de fracasso consumindo ele a ponto de que não restava muito entusiasmo sincero em viver. Ele se encontrava nos seus estudos, nas suas leituras, mas no geral isso era uma fuga para o fracasso que ele estava sentindo.
Então ele arranjou um emprego e não se sente mais fracassado. Tudo, de alguma forma, mudou. Ele tem estado relaxado, e seu sorriso é realmente pleno. Ele sorri com todo o seu pensamento, com toda a pessoa que ele é. Eu tentei, no momento de crise, deixar bem claro que eu estava aqui por ele, mas a infelicidade de não estar se sentindo bem consigo mesmo o fazia até agradecer verbalmente meu esforço, mas na prática sempre acabava sendo rude.
Resumindo, eu não quero mais relações em que eu estou sozinha nelas, mas preciso dar tempo das pessoas me provarem que ou é escolha delas e por isso elas precisam ser descartadas, ou é apenas uma fase, que elas estão sofrendo para dar o melhor de si para mim no momento. Nesse caso eu preciso ter paciência e esperar o quanto for possível.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Minha mãe é uma terrorista

Minha mãe já foi assunto muitas vezes nos meus escritos. Isso porque em muitos momentos ela não saía da minha mente. Parecia estar em todos os lugares, a qualquer hora, sempre me fazendo ter medo, me fazendo chorar, me fazendo me encolher contra a parede aterrorizada, tremendo, sendo machucada. Na última vez que ela tentou fazer isso eu liguei para meu pai porque queria desabafar isso com alguém, de preferência alguém são e que soubesse agir com lógica na hora de fortes emoções. E ele me disse tudo que eu precisava ouvir. Que um dia, quando eu tinha 5 anos, vi minha mãe brigando como uma leoa com a minha irmã. Eu o abracei forte e comecei a chorar. Então ele me lembrou que eu não tenho mais 5 anos, eu não preciso mais me esconder com medo para chorar. Eu tenho 30 anos, não dependo dela para nada porque ela sempre decidiu que me ajudar seria um sacrifício muito grande, então por que continuar tendo medo dela como quando eu tinha 5 anos? Por que continuar me aterrorizando com a simples menção de que ela está querendo se comunicar comigo?

Ela quer vim na minha casa com o pretexto de pegar coisas que, se fossem de fato importantes no mar infindável de coisas que ela tem, ela não teria deixado aqui. Mas eu sei que o que ela quer é se reconectar comigo de forma doentia. Ela quer vim ou para mostrar superioridade, vindo e me olhando com desprezo de cima a baixo e indo embora; ou ela quer ficar e me olhar com críticas saltando aos seus olhos, pronta para escarnecer a forma que vivo, onde vivo, as coisas que tenho; ou ela quer vim para, aos berros, tentar me forçar a terminar uma relação que não lhe diz respeito; ou, na melhor das hipóteses, virá para me contar mentiras, como que ela me ama muito, que ela se preocupa muito comigo, para assim que for conveniente ela ir embora sem nem dizer adeus.

Ela é capaz até de se unir a quem está me fazendo mal, só porque ela pode, só porque ela quer. Pedi para ela não se comunicar com meu ex namorado por causa das várias razões que se sucederam nos últimos tempos, ela não deu a minima. Porque no fim das contas ela ter alguém que a pegue e a deixe para cima e para baixo vale totalmente meu bem estar.

Eu cansei de ter pessoas tóxicas por perto, cansei de que elas tenham poder sobre mim, que eu não possa fazer nada contra o veneno delas. Eu tenho o que reclamar do Johnny, mas é minha escolha estar passando por momentos ruins com ele, eu sei disso. Na hora que ele fazer me sentir como minha mãe costuma fazer, eu não penso duas vezes em tirá-lo da minha vida. E eu pretendo fazer isso com qualquer pessoa que tente ser nociva perto de mim, que queira seu bem em detrimento do meu, que escolha me magoar porque eu não fiz seus caprichos.

O problema na verdade é comigo. Conheço muita gente, muita mesmo, que não deixa esse tipo de coisa acontecer. Se a pessoa é nociva, pode ser mãe, pai, filho, o que for, espanta essa pessoa da sua vida e pronto. Não aceita um fardo genioso e mimado para si porque simplesmente não tem obrigação disso. Como eu não tenho obrigação.

Ela diz que está vindo por causa de umas panelas. Agora repare bem: ela quer passar 4 horas de uma viagem fracionada, pegar umas panelas e, segundo ela, pegar a viagem de volta. Pelo que eu a conheço, ela não vai nem na esquina, por nada. Ela quer vim com uma intenção malévola, é óbvio. O que ela não entende é que é a minha casa, minha vida, ela não é bem vinda aqui, não depois que disse que não seria mais minha mãe por causa de uma foto e umas palavras bonitas direcionadas por mim ao meu namorado. Ela não é bem vinda porque só esteve ao meu lado quando lhe convinha, porque onde ela estava ela conseguiu arranjar vergonhosas brigas com todo mundo. Depois disso, ela foi embora me deixando sem saber direito o que fazer, sem estrutura, sem apoio, porque ela simplesmente se entediou de mim e da minha vida.

Eu já deixei de contar emocionalmente com qualquer pessoa, em particular com os meus pais. Eles são quebrados nesse aspecto, eu tive que me conformar com isso. Mas meu pai até pode pecar pela falta, mas quando o excesso é de uma autoridade terrorista, eu simplesmente prefiro a falta. Não interfiro na vida do meu pai, ele não interfere na minha. Eu sou apenas um número no dia 5 de cada mês, 300 reais a menos na conta dele. E só. Eu gostaria de um pai amoroso que se preocupasse de verdade com como estou vivendo, se estou conseguindo me alimentar, me sustentar, se estou bem? Adoraria, mas eu não tenho um desses, e provavelmente nunca terei. Mas ter uma mãe que acha que depois de 30 anos ainda consegue me persuadir a fazer seus gostos através do terror que aplica em mim, não, isso não. Isso eu não aceito e não me conformo. E tudo que eu preciso fazer é dizer isso a ela e segurar as pontas do fato dela me odiar para sempre.

Eu tenho estado cansada demais, farta dessa vida ociosa, vazia, mesquinha. Não consigo ver o mundo, não consigo conhecer pessoas que arejem a forma como eu o vejo, não consigo me comunicar com meu namorado. É só eu, 4 paredes, e a impressão que estou morrendo aqui. A minha potência está morrendo, a pessoa que eu posso vim a me tornar, melhor, mais confiante, mais poderosa, está morrendo sufocada aqui. 

terça-feira, 28 de março de 2017

Na minha patética tentativa de me comunicar com pessoas para que minha vida com elas e comigo mesma ficasse melhor, falhei vergonhosamente. Por causa disso tenho me forçado a todos os dias vim aqui, neste canal solitário de comunicação, e falar um pouco sobre como estou me sentindo sobre as pessoas e sobre mim.

Como a escrita é quase completamente livre, quase incensurável, não fico me atendo muito à forma, ou respeitando normas de escrita, pois em tese isso não será lido por ninguém, apenas por mim.

Cassiano arranjou um emprego. Infelizmente para ele, pois eu sei o quanto ele fica realmente estressado com isso, ainda não é uma coisa definitiva. Mas dá para ver como as coisas mudaram, como ele parece um pouco mais relaxado e confiante. Já eu fico pensando o que vem pela frente. Toda relação é uma relação de poder, e por mais que eu seja o cachorro pequeno dessa relação por ele ter "naturalmente" uma personalidade mais marcante e mais ditadora, eu ganhava mais e poderia aguentar, mas ele sabia que havia seus limites. Agora ele vai ganhar quase o dobro e eu estou bem curiosa sobre como ele vai se comportar. Afinal, para saber do caráter de uma pessoa, é só dar poder a ela.

Ele vive falando que no mundo como eu vejo as pessoas são boas e gentis, e que isso está longe de ser realidade. O que ele não sabe é que pouco me importa se uma pessoa fora do meu convívio social é boa e gentil, se ela tem ou não caráter. Não dou a mínima. Então pensar o melhor sobre elas é só tentar não ser maldosa. Agora com as pessoas que convivem comigo, aí sim, eu tenho uma imensa desconfiança, espero sempre o pior e estou sempre preparada para um golpe cruel pelas costas. É por isso que ao invés de estar preocupada sobre ele ganhar mais, sobre ele ter mais poder nessa relação, eu estou curiosa, porque eu espero o pior e estou me preparando para ele. O que ele não percebe é que eu não sou ingênua por não achar que Daiane trai seu marido, eu apenas não ligo. O que ele não percebe é que meus olhos estão longe de um casamento que não me interessa, mas atentos para os passos que ele dá, para os comportamentos que ele tem.

Ele se acha super esperto, o mais esperto de todos. Mas tem coisas que nas quais ele erra. Uma pessoa esperta sabe o valor do silêncio. Eu sei que ele guarda bem raivas em silêncio para me dar botes, como ele sempre fez quando o assunto era relacionado à minha comunicação com Felipe. Mas ele esquece que o bom esperto é aquele que nunca diz que é esperto, que nunca se gaba disso. Ele se gaba por ter vivido muito, ter casado uma vez com alguém que ensinou a ele da pior forma possível como ser alguém perspicaz. O que ele não entende é que eu também sou esperta porque o mundo me fez assim, meus pais, os casais que eu vejo em volta de mim, Danilo, muitas coisas que eu vivi que não foram exatamente as que ele viveu me fizeram de certo modo esperta também. E eu sou esperta com coisas que realmente me são mais importantes. É lógico que dentro de mim deve haver algo que se incomode caso ele "fique de papo" com outra garota ou chegue a me trair. Não é uma coisa que eu sinta me dominando, mas eu tenho certeza que deve haver dentro de mim esse cuidado. A questão é que esse tipo de coisa não é o que eu realmente tenho medo.

Tenho medo da deslealdade. Tenho medo, por exemplo, dele ter aproveitado muito bem minha estadia, meus esforços para nos sustentar enquanto ele não ganhava quase nada e agora, que tem como se manter, ir embora. Me processem, mas eu acho que as pessoas acumulam dívidas com quem as ajuda.

Eu sei que tenho me sentido cada vez mais insensível nesse relacionamento, pensando como se ele fosse um negócio, em quem está ganhando, quem está saindo no prejuízo, focando quase nada na paixão, no tesão, no emocional. Mas eu não sei se me sinto mal por isso. Eu tentei me relacionar com pessoas por paixão, depois de Danilo, mas a verdade é que nunca mais consegui me permitir. Por isso aquele apego à Felipe me surpreendeu. Teria sido eu apaixonada por ele e só fui notar na sua ausência? Não sei. O que eu sei com certeza é que nossa relação envolvia muito sentimentos bons, mas paixão definitivamente não era um deles. Amizade, companheirismo, sensação de segurança, de afeto, isso tudo nos definiu. Paixão não.

Acontece que eu fico me perguntando qual a função da paixão quando você sai da adolescência. A paixão me fez perder um tempo imenso, perder grande parte da minha personalidade, da minha dignidade. Me submeti a todo tipo de humilhação, de neurose, de paranóia por causa de uma paixão juvenil que me perseguiu por anos. Qual o ponto, afinal? Ter umas transas legais e depois só dor, por tempo indeterminado?

Paixão sempre vem atrelada a drama. Uma não existe sem a outra. É como se o drama fosse o tempero principal. Se não houver uma problemática na relação, a paixão não surge. Por isso que pessoas sempre estão se "apaixonando" por pessoas que não podem ter, ou quando podem ter o relacionamento é cheio de complicações e travas e dificuldades.

Estou assistindo uma série onde uma das personagens principais tem uma vida bastante confortável, um marido bonito, bem sucedido, mas que reage de forma muito violenta a qualquer coisa, repentinamente. Acontece que essa reação violenta segue-se sempre de um sexo incrivelmente apaixonado. Ou seja: ele se irrita, não consegue controlar a irritação, a agride e no meio da agressão, eles fazem sexo intenso, selvagem, desesperado, apaixonado. Mesmo quando eles não estão nessa rotina doentia, quando estão em público, as pessoas chegam a se incomodar com a visível paixão latente que um mantém pelo outro. A paixão deles está atrelada à violência que ela sofre. Em outra série que eu vi, completamente diferente, uma garota era, em tese, apaixonada por um rapaz. Mas foi vendo a série direto, com pouco tempo de interrupção, que eu percebi que ela era apaixonada por se apaixonar. Para ser mais exata, ela era apaixonada pelo drama e pela paixão que vinha com o drama. Sempre que ela estava bem com o homem dos sonhos dela, ela arranjava uma forma de um novo drama surgir, ele ir para longe dela, e ela chorar, sofrer, viver e respirar o drama, mantendo assim a chama da paixão viva.

Isso me deixa decepcionada. As pessoas falam da paixão como se fosse algo maravilhoso, mas estão aí provas de que não chega nem a ser bom. Paixão é adrenalina na veia. Mas o que é adrenalina? É algo que o corpo libera na sua corrente sanguínea quando você precisa se defender rapidamente de um perigo iminente. Em poucas palavras: medo. Sentir paixão é sentir medo o tempo todo e isso dá um barato no corpo, no cérebro, mas não é algo louvável. Eu não gosto de sentir medo para me sentir viva. 

Já estive em situações de paixão. Uma transa em que a adrenalina estava lá encima por muitas razões. Por alguns segundos você sente dono do mundo, mas logo depois fica se perguntando se vale a pena. Provocar medo para sentir paixão normalmente leva para péssimos lugares: traições, relacionamentos proibidos, relacionamentos abusivos, entre outros. Por que me submeter a esse tipo de coisa por alguns segundos de intensidade? É por razões como essa que as pessoas estão sempre saindo de uma droga lícita para outra ilícita, e depois para outra mais forte, e depois perdem o controle.

Óbvio que eu serei chamada de anti romântica. Até ser acusada de não ter sentido na vida algo tão poderoso como a paixão e por isso não tenho conhecimento de causa. Eu já acho que as pessoas são domesticadas para pensarem que a paixão é fundamental e boa, e pensar sobre ela como algo nocivo é inadmissível. Sem o calor da paixão, como as pessoas compram anéis para suas noivas, como se casam num casamento pomposo, como compram depois casas, e fazem hipotecas? Todo mundo sempre diz que quando se casa a paixão vai diminuindo. Ela não vai diminuindo, ela some. Se uma pessoa casou, ela não tem mais razão para ter medo, e medo - seja lá do que for - é a mola propulsora da paixão.

Medo de ser pego, medo de perder aquela pessoa, medo das situações arriscadas que aquela pessoa lhe coloca, medo de que aquela pessoa esteja lhe dando menos importância do que você está dando a ela. São infinitos os exemplos.

Então me julguem porque eu não quero sentir medo o tempo todo para ter alguns segundos de prazer numa transa de vez em quando. É para isso que existem as fantasias, para dar medo apenas naquele momento entre quatro paredes, não antes ou depois dali.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Não sei se tem idade para parar de sentir isso. Uma cerveja gelada, The Doors arrasando na caixa de som, um computador para poder escrever, eu despreocupadamente desnuda na cama. A combinação dessas coisas faz tudo à minha volta parecer mágico, tudo parece muito melhor, muito mais interessante. Até mesmo esse apartamento pequeno e desarrumado, até o barulho da academia que está no piso de baixo, até mesmo o fato de que a minha cama treme quando tem uma aula barulhenta com mulheres suadas pulando de um lado para outro.

Me sinto uma beat. Eu já vi um mundo onde as pessoas usam a decrepitude para construir algo, para criar, para atingir níveis interessantes de percepção. Não falo de drogas, a não ser música, arte e cerveja. Todo o caos parece bonito, parece gostoso, parece um meio de acessar algo dentro de si mesmo que as regras do dia a dia bloqueiam totalmente.

Então, para mim, estar ouvindo essa música, bebendo essa cerveja e escrevendo esse texto, é como se eu estivesse preparando um belíssimo ritual que me permite olhar através de uma porta tudo que se pode ser além do óbvio, do esperado, do normativo. Padrões são um saco, não sei porque tanta gente está se apegando a eles.

Vivemos num momento de desconstrução social. Esse termo inclusive é moda. Mas estamos vivendo de verdade, não é modinha que já passa e ninguém mais vai lembrar. E eu acho isso muito foda! Lógico que está mais para uma revolução armada do que para um processo pacífico. Feminista exagera sim! Negro exagera sim! Gay exagera sim! Trans exagera sim! Cometem absurdos, se acham os donos da verdade. Mas o que se esconde das pessoas é que a verdade pode ser roubada e convertida para justificar qualquer grupo social. Não dizem que a verdade é relativa? É por isso, porque um determinado grupo começa a dominar, toma a verdade para si e a converte. A verdade é algo em constante transformação.

Essas pessoas que hoje tomam à força a verdade, que de alguma forma instalam uma ditadura onde quem é contra tem que ser demonizado, são pessoas que passaram séculos baixando a cabeça para uma verdade que ferrava eles em todos os níveis de sua vida e da sua personalidade. Negros, homossexuais, transexuais, por séculos precisaram sentir uma gigantesca vergonha de quem eram, porque a verdade vigente é de que eles eram aberrações, seres inferiores, feios, bizarros, um incômodo para olhar do mundo. Quem em sã consciência acha que isso deve ser simplesmente esquecido, ou que sequer existiu, ou que isso não deve ser levado em conta? São eles agora que comandam a agenda. E se uma coisa que podemos aprender com a História, é que oprimidos são apenas opressores sem poder.

Eu não sou gay, nem negra, nem trans. Eu não comando a agenda. Mas sinceramente, até o dado momento, tenho me mantido no meu quadrado e por isso não tenho me sentido oprimida por essa desconstrução. Acho até interessante e bonito que muitas pessoas que há 10 anos atrás se sacrificavam para se encaixar no padrão estão se aceitando do jeito que são, aos montes, e assim, de alguma forma, estabelecendo um novo padrão.

Minha filosofia é "não mexa comigo que eu não mexo com você" e assim caminha a Humanidade. Então posso sim achar alguns atos bem exagerados, bem abusivos até, mas eu sei que essa é uma forma de se impor, na marra. Quem tá incomodado, terá que usar mais do que meros argumentos para tentar fazer uma pressão contrária. Só os hippies achavam que a paz e o amor transformariam algo. Infelizmente, é a guerra que move tudo.

Então quando me perguntam de que lado estou, eu prefiro desconversar, dizer que não tenho informações suficientes para ter uma opinião bem embasada e definida. Mas isso não é completamente verdadeiro. Muita coisa eu estou apenas observando porque eu sei que minha opinião não significa absolutamente nada. Nem todo alemão era nazista, mas do que importava a opinião de um alemão contra o nazismo para um judeu condenado dentro de uma câmara da gás? Nada. No mundo inteiro atrocidades ferozes, daquelas que fazem você achar que só pode existir uma entidade demoníaca mesmo para dar coragem para alguém fazer algo do tipo, aconteceram durante a História. E a opinião de quem não comandava a agenda, de quem era contra, nunca impediu ninguém de nada. Essa noção de que se todas as vozes contrárias se unirem vão ser ouvidas é uma ilusão. Quem está no poder cala qualquer multidão, através do terror, da intimidação, do medo, da inversão de valores, de muitas formas agressivas. Sabendo disso, por que vou ficar expondo por aí o que eu acho ou deixo de achar?

Mas sempre existirão pessoas idealistas. Idealistas são aquelas pessoas que acreditam que suas opiniões são uma resistência realmente relevante. E é bem sabido que esses idealistas podem até ser um prelúdio do que um dia o mundo virá a ser, mas entre seus ideais e a concretização deles, séculos se passam. Porque um ideal precisa interessar alguém que esteja disposto a muito mais do que ter apenas ter uma opinião. Ele precisa unir multidões raivosas dispostas a tudo pela causa. Precisa ser ambicioso, deixar a moral de lado e sujar suas mãos. De lama, de sangue, do que for. Todos os idealistas bem sucedidos foram opressores e assassinos, todo mundo sabe disso.

Vendo por esse ângulo, a desconstrução social, a ditadura das minorias, até que nem é tão ruim. Ainda não está se matando covardemente em nome disso. Mas ainda é cedo.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Ontem foi horrível, mas absolutamente previsível. Eu me impus, ele surtou. Nada que eu já não esperasse como o nascer do sol a cada dia. E foi incrível a transformação, a metamorfose. Em um segundo ele era um homem maduro, falando de forma segura e compreensiva, com aquele tom de quem acredita que tudo no mundo se resolve com um bom e racional diálogo. No outro ele era um bruto raivoso, dizendo impropérios e se negando a aceitar algo absolutamente normal: eu não querer que ele faça todas as escolhas básicas da minha vida. Se ele escolhe que eu faça algo, esse algo é adulto, responsável, respeitável, aceitável. Se eu escolher fazer algo é infantil e eu estou "mandando ele se foder". Só eu vejo o absurdo aqui? Ele realmente quer que eu aceite todas as escolhas que ele faz por mim, nunca escolha por mim mesma e ache que está tudo bem assim?

Sinto muito mesmo que tudo que eu escrevi ontem mesmo se fez provar em toda a sua plenitude. Sinto muito que ele nos empurrou com toda a força para um abismo e tornou tudo mais difícil (ou mais fácil, a depender do ponto de vista). Foi como se um elo tivesse se quebrado ontem, tanto que eu não sabia o que esperar dele pela manhã. Cheguei a pensar que não estaríamos namorando mais ou que estaríamos dando um tempo. Até que ele demonstrou afeto, me deu um beijo ou dois beijos tímidos e eu entendi que ainda estamos nessa.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Sinceramente não sei o que esperar da universidade. Já se foram quatro cursos, já se foram quatro "primeiras aulas", turmas, professores, conteúdos, provas, tudo. Já estive no mundo acadêmico quatro vezes, mas por alguma razão louca, parece que é a primeira vez. Estou entusiasmada, ansiosa, receosa. De alguma forma acho que esse curso vai me dar propósito na vida, vai me dar uma razão para acordar todos os dias, vai ser uma jornada.

Muitas pessoas estarão nesse caminho comigo, compartilhado-o comigo. Pessoas com as mesmas ambições e propósitos. Não sei se gostarei delas ou elas de mim, pois faz muito tempo que não me relaciono com pessoas no geral. Tenho estado off line do mundo há quase 1 ano ou mais e voltar a ter uma vida ativa vai ser impactante de alguma forma.

E isso me entusiasma. Gosto de ter um espaço só para mim, gosto de ficar sozinha tempo o suficiente para poder conversar comigo mesma, mas também gosto de visitar o mundo lá fora e conhecer as pessoas que estão nele. O problema é que Cassiano não consegue disfarçar sua insegurança em relação à isso. Faltam 2 meses para as aulas começarem e eu já sinto a pressão de não poder fazer amizades com homens, já prevejo brigas homéricas, drama por todo lado. Para ele não existe amizade entre homem e mulher, e sendo assim, eu não posso ter amizade com homem algum.

Eu até entendo ele, mas não concordo. E o pior é que é da minha vida que ele está falando, é sobre a minha vida que ele está legislando. Eu entendo o que é insegurança, eu já senti muito. Mas eu era uma criança mimada junto com alguém realmente malicioso. Não vou dizer que sou a pessoa mais confiável do mundo, mas quero ter amigos e ele deveria entender isso. 

Não existe contraponto, a defesa dele é que ele não tem amigas, que ele não dá entrada ou cabimento para mulheres se tornarem suas amigas ou confidentes. Ele diz que é por isso, por causa do esforço dele que eu não sinto insegurança. 

Sinceramente, não sei se isso é verdade. Se fosse Danilo, por exemplo, uma pessoa com quem eu era indubitavelmente insegura, eu estaria enlouquecendo com ou sem amigas declaradas, não importa o que ele dissesse. 

O que eu penso é que não devemos proibir amizade com o sexo oposto, mas deixar claros os limites. É bem sabido que essas amizades vez ou outra se confundem em atração, mas para evitar isso eu teria que me abster de ter contato com qualquer homem e ele com qualquer mulher. Porque pessoas nos desejarão, dando brechas ou não para isso acontecer. O que muda é a nossa postura, é o limite que impomos às pessoas que estão ao nosso redor e que se propõem a ser nossas amigas. 

O medo dele provavelmente está em outra coisa. Eu já fui a "rainha do baile" na universidade uma vez, posso ser de novo e sendo assim, o assédio pode ser grande. Como eu falei, eu não sei o que esperar de lá. Não sei se serei a abelha rainha novamente, uma vez que no último curso que fiz vi alguém neste papel. Talvez abelhas rainhas tenham um prazo de validade, uma idade máxima (rsrs). Mas se eu for, ele sabe que todo ser humano gosta de ser admirado, desejado, requisitado. E, principalmente, ele sabe que se isso acontecer, ele não vai conseguir ser tão atencioso quanto uma turma inteira de homens. 

Então eu tenho que entender. Mas estou dividida entre entender ele e simplesmente não deixar passar uma experiência fantástica de contato e conexões de 5 anos. Eu sei, não sou mais uma adolescente e, principalmente, não sou mais solteira. Mas para mim esse curso não é apenas como minha nova chance, mas como finalmente a chance que eu sempre esperei. Como disse anteriormente, para mim é como se fosse a primeira vez.

Não quero brigar com ele por causa disso, até porque é inútil, eu sei o que ele pensa e sei que ele nunca vai mudar o que sente a respeito.

Isso é estranho porque eu me sinto empurrada pela vida a estar em determinadas fases. Ter um relacionamento sério, morar junto, ter contas para pagar, ser dona de casa. A questão é que eu não sei quem definiu essas paradas obrigatórias, essas fases. E eu não gosto delas. Não gosto que paire sobre mim as palavras "você é muito velha para aquilo, agora você tem que fazer isso". O que eu preciso é arcar com as responsabilidades sobre meu sustento, minha independência financeira, e só. Eu não preciso me sentir obrigada a pensar em casar, em ter filhos, em dividir minha vida com uma pessoa. Por mais que Cassino tente me convencer que isso é obrigatório, isso não é. Minha única dívida é não ter me formado, é não estar no meio de uma carreira agora, sem precisar de pai ou avó para me manter. Mas de resto, não devo nada a ninguém.

Talvez eu queira ter 18 anos novamente, viver pela primeira ou segunda vez coisas dessa fase da vida, porque tem coisas que não são da conta de ninguém. Ter um monte de amigos, sair, conhecer o mundo, viajar. Se ele acha que não consegue lidar com uma garota, ou que acha que qualquer garota que viva essas experiências necessariamente vai traí-lo ou envergonhá-lo, então temos um problema. Porque quando ele apareceu na minha vida, ele não me propôs mudar tudo o que eu quero para mim em prol de nós dois. Eu já abri mão de coisas e mudei muitos posicionamentos e opiniões para estar com ele. Afinal, reciclar o que se pensa nunca é ruim. Eu estou aprendendo com ele sobre comprometimento com o outro, sobre dar tudo o que tem para ver o outro a salvo, bem e feliz. Nossa relação tem me dado uma aula de humanidade, não de relacionamento. É essa a grande diferença entre nós. Eu o amo como uma pessoa, ele me ama como sua mulher, como sua propriedade, como algo que ninguém mais pode ver ou desejar ou manter contato. E não é isso que eu quero para mim.

Se eu digo isso para ele, é óbvio que ele vai remeter ao meu passado, aos meus relacionamentos sem importância, casuais, e vai querer comparar o que temos com o que eu tive com pessoas boas e legais, mas que por alguma razão não me foram suficientemente boas para mudar meu ponto de vista. Felipe passou 4 anos da juventude dele para estar ao meu lado, para abraçar todos os meus problemas, me apoiar incondicionalmente e mesmo assim ele não conseguiu me fazer pensar que ele merecia todo o meu amor. Mas Cassiano não vê isso. Ele vê "deu encima e você não cortou", "na sua turma só tem macho", "com certeza vai fazer amizade com macho". Esse tipo de coisa está me cansando muito, porque é mais um valentão na minha vida, mais um abusador. Alguém que prefere tentar me reprimir por pura insegurança ao invés de estar ao meu lado pacificamente, .

É isso que todos os abusadores que passaram pela minha vida têm em comum. Eles querem me manter refém ao invés de me manter como companheira. Eles me metem medo, se impõem sobre mim para me dominar através da intimidação e isso me faz sofrer. E se me faz sofrer, me impede de sentir amor por muito tempo. Gostaria muito que antes dele tentar me impedir de ter amigos, de viver a experiência da universidade, ele visse que ele já exigiu um monte de coisas difíceis de mim e eu cedi sem pestanejar; que não existe relação sem confiança, porque se ele acha que eu vou traí-lo por ter amigos homens, ele tem duas alternativas: ou me tira o direito de ter amigos homens, ou termina comigo, e as duas opções são bem ruins. 

Ele sempre dá a entender que eu tenho que crescer no que concerne minhas experiências. Eu TENHO que me casar - e isto significa colocar a vontade dele acima das minhas - eu TENHO que ser dona de casa, eu TENHO que pensar em ter filhos. Ou isso, ou nada. Se não for isso, ele está perdendo o tempo dele comigo. Curioso que estou dando o meu melhor para apoiá-lo no sonho de se graduar em filosofia, estou dando meu espaço, meu dinheiro, minha paciência, o pouco que tenho para me sustentar para que ele não tenha que desistir dos planos, mas minha amizade com um homem é maior do que isso tudo, é capaz de desfazer nossa relação.

Repensando minhas relações, eu nunca fui de dar muita coisa por elas. Com Danilo eu dei 7 dos melhores anos da minha vida. Foi muita coisa, mas foi porque eu cobrava o mesmo dele incansavelmente. Foi mau negócio para mim e para ele. Mas na minha relação com Cassiano eu só espero de retorno que ele possa realizar seus sonhos, que ele esteja bem e seguro e que ele me ame e me respeite, me veja como amiga, companheira, não uma inimiga prestes a dar o bote na primeira oportunidade. Por que namorar com uma inimiga? Por que perder o seu tempo e o dela se ser ela mesma vai ser sempre uma atitude contra você?

Estou cansada e nem sei como dizer essas coisas para ele. Fico pensando se eu deveria tomar as rédeas dessa situação e terminar esse namoro por ver que ele está sendo abusivo. Penso se sentirei aquela falta excruciante, comum em relações imaturas e possessivas. Outra coisa que certamente ele usa como régua para meus sentimentos: meu desapego. Se eu não morrer com o nosso fim, é porque eu não o amo. Simplesmente joga no lixo tudo que eu faço, tudo que eu deixo de fazer porque ele acha errado, só porque eu não sou uma pessoa desesperada. Ele não entende que ser desesperada por alguém quase me matou, destruiu minha vida, me fez perder um tempo incalculavelmente precioso e de alguma forma me trouxe até aqui: 30 anos, sem formação, sem emprego, sem independência, dependendo de parentes. Não é normal, não é bom, não é saudável, não é desejável que eu ou ele tenhamos a impressão que esse relacionamento está acima de nós, do nosso bem estar, da nossa felicidade. Ou ele compete a favor ou então precisa terminar, porque eu não ficarei alimentando uma relação que me torna uma pessoa infeliz.

Sempre tive medo de mudanças na minha vida, principalmente quando isso envolve uma mudança no âmbito amoroso. Porque terminar, para mim, independente de como foi o relacionamento e com quem era, sempre foi difícil. Minha rotina mudava repentinamente, na balança as coisas boas, mesmo que fossem poucas, do nada começavam a pesar muito mais do que as muitas ruins; eu sentia saudade, sentia a ausência. E é por isso que apesar de eu sentir que minha vida não está condicionada a esse relacionamento, eu não queria chegar ao ponto de terminar. Por isso que eu gostaria muito que ele aprendesse a ceder também, mudasse a forma como vê as coisas, como eu fiz para estarmos juntos. Porque eu não vejo sentido em ficar numa relação em que um abre mão de tudo que pensa, que acredita, que quer, para aceitar tudo o que o outro tem para si como melhor, como correto, como ideal, mesmo que isso implique em castrar a outra pessoa.