Na minha patética tentativa de me comunicar com pessoas para que minha vida com elas e comigo mesma ficasse melhor, falhei vergonhosamente. Por causa disso tenho me forçado a todos os dias vim aqui, neste canal solitário de comunicação, e falar um pouco sobre como estou me sentindo sobre as pessoas e sobre mim.
Como a escrita é quase completamente livre, quase incensurável, não fico me atendo muito à forma, ou respeitando normas de escrita, pois em tese isso não será lido por ninguém, apenas por mim.
Cassiano arranjou um emprego. Infelizmente para ele, pois eu sei o quanto ele fica realmente estressado com isso, ainda não é uma coisa definitiva. Mas dá para ver como as coisas mudaram, como ele parece um pouco mais relaxado e confiante. Já eu fico pensando o que vem pela frente. Toda relação é uma relação de poder, e por mais que eu seja o cachorro pequeno dessa relação por ele ter "naturalmente" uma personalidade mais marcante e mais ditadora, eu ganhava mais e poderia aguentar, mas ele sabia que havia seus limites. Agora ele vai ganhar quase o dobro e eu estou bem curiosa sobre como ele vai se comportar. Afinal, para saber do caráter de uma pessoa, é só dar poder a ela.
Ele vive falando que no mundo como eu vejo as pessoas são boas e gentis, e que isso está longe de ser realidade. O que ele não sabe é que pouco me importa se uma pessoa fora do meu convívio social é boa e gentil, se ela tem ou não caráter. Não dou a mínima. Então pensar o melhor sobre elas é só tentar não ser maldosa. Agora com as pessoas que convivem comigo, aí sim, eu tenho uma imensa desconfiança, espero sempre o pior e estou sempre preparada para um golpe cruel pelas costas. É por isso que ao invés de estar preocupada sobre ele ganhar mais, sobre ele ter mais poder nessa relação, eu estou curiosa, porque eu espero o pior e estou me preparando para ele. O que ele não percebe é que eu não sou ingênua por não achar que Daiane trai seu marido, eu apenas não ligo. O que ele não percebe é que meus olhos estão longe de um casamento que não me interessa, mas atentos para os passos que ele dá, para os comportamentos que ele tem.
Ele se acha super esperto, o mais esperto de todos. Mas tem coisas que nas quais ele erra. Uma pessoa esperta sabe o valor do silêncio. Eu sei que ele guarda bem raivas em silêncio para me dar botes, como ele sempre fez quando o assunto era relacionado à minha comunicação com Felipe. Mas ele esquece que o bom esperto é aquele que nunca diz que é esperto, que nunca se gaba disso. Ele se gaba por ter vivido muito, ter casado uma vez com alguém que ensinou a ele da pior forma possível como ser alguém perspicaz. O que ele não entende é que eu também sou esperta porque o mundo me fez assim, meus pais, os casais que eu vejo em volta de mim, Danilo, muitas coisas que eu vivi que não foram exatamente as que ele viveu me fizeram de certo modo esperta também. E eu sou esperta com coisas que realmente me são mais importantes. É lógico que dentro de mim deve haver algo que se incomode caso ele "fique de papo" com outra garota ou chegue a me trair. Não é uma coisa que eu sinta me dominando, mas eu tenho certeza que deve haver dentro de mim esse cuidado. A questão é que esse tipo de coisa não é o que eu realmente tenho medo.
Tenho medo da deslealdade. Tenho medo, por exemplo, dele ter aproveitado muito bem minha estadia, meus esforços para nos sustentar enquanto ele não ganhava quase nada e agora, que tem como se manter, ir embora. Me processem, mas eu acho que as pessoas acumulam dívidas com quem as ajuda.
Eu sei que tenho me sentido cada vez mais insensível nesse relacionamento, pensando como se ele fosse um negócio, em quem está ganhando, quem está saindo no prejuízo, focando quase nada na paixão, no tesão, no emocional. Mas eu não sei se me sinto mal por isso. Eu tentei me relacionar com pessoas por paixão, depois de Danilo, mas a verdade é que nunca mais consegui me permitir. Por isso aquele apego à Felipe me surpreendeu. Teria sido eu apaixonada por ele e só fui notar na sua ausência? Não sei. O que eu sei com certeza é que nossa relação envolvia muito sentimentos bons, mas paixão definitivamente não era um deles. Amizade, companheirismo, sensação de segurança, de afeto, isso tudo nos definiu. Paixão não.
Acontece que eu fico me perguntando qual a função da paixão quando você sai da adolescência. A paixão me fez perder um tempo imenso, perder grande parte da minha personalidade, da minha dignidade. Me submeti a todo tipo de humilhação, de neurose, de paranóia por causa de uma paixão juvenil que me perseguiu por anos. Qual o ponto, afinal? Ter umas transas legais e depois só dor, por tempo indeterminado?
Paixão sempre vem atrelada a drama. Uma não existe sem a outra. É como se o drama fosse o tempero principal. Se não houver uma problemática na relação, a paixão não surge. Por isso que pessoas sempre estão se "apaixonando" por pessoas que não podem ter, ou quando podem ter o relacionamento é cheio de complicações e travas e dificuldades.
Estou assistindo uma série onde uma das personagens principais tem uma vida bastante confortável, um marido bonito, bem sucedido, mas que reage de forma muito violenta a qualquer coisa, repentinamente. Acontece que essa reação violenta segue-se sempre de um sexo incrivelmente apaixonado. Ou seja: ele se irrita, não consegue controlar a irritação, a agride e no meio da agressão, eles fazem sexo intenso, selvagem, desesperado, apaixonado. Mesmo quando eles não estão nessa rotina doentia, quando estão em público, as pessoas chegam a se incomodar com a visível paixão latente que um mantém pelo outro. A paixão deles está atrelada à violência que ela sofre. Em outra série que eu vi, completamente diferente, uma garota era, em tese, apaixonada por um rapaz. Mas foi vendo a série direto, com pouco tempo de interrupção, que eu percebi que ela era apaixonada por se apaixonar. Para ser mais exata, ela era apaixonada pelo drama e pela paixão que vinha com o drama. Sempre que ela estava bem com o homem dos sonhos dela, ela arranjava uma forma de um novo drama surgir, ele ir para longe dela, e ela chorar, sofrer, viver e respirar o drama, mantendo assim a chama da paixão viva.
Isso me deixa decepcionada. As pessoas falam da paixão como se fosse algo maravilhoso, mas estão aí provas de que não chega nem a ser bom. Paixão é adrenalina na veia. Mas o que é adrenalina? É algo que o corpo libera na sua corrente sanguínea quando você precisa se defender rapidamente de um perigo iminente. Em poucas palavras: medo. Sentir paixão é sentir medo o tempo todo e isso dá um barato no corpo, no cérebro, mas não é algo louvável. Eu não gosto de sentir medo para me sentir viva.
Já estive em situações de paixão. Uma transa em que a adrenalina estava lá encima por muitas razões. Por alguns segundos você sente dono do mundo, mas logo depois fica se perguntando se vale a pena. Provocar medo para sentir paixão normalmente leva para péssimos lugares: traições, relacionamentos proibidos, relacionamentos abusivos, entre outros. Por que me submeter a esse tipo de coisa por alguns segundos de intensidade? É por razões como essa que as pessoas estão sempre saindo de uma droga lícita para outra ilícita, e depois para outra mais forte, e depois perdem o controle.
Óbvio que eu serei chamada de anti romântica. Até ser acusada de não ter sentido na vida algo tão poderoso como a paixão e por isso não tenho conhecimento de causa. Eu já acho que as pessoas são domesticadas para pensarem que a paixão é fundamental e boa, e pensar sobre ela como algo nocivo é inadmissível. Sem o calor da paixão, como as pessoas compram anéis para suas noivas, como se casam num casamento pomposo, como compram depois casas, e fazem hipotecas? Todo mundo sempre diz que quando se casa a paixão vai diminuindo. Ela não vai diminuindo, ela some. Se uma pessoa casou, ela não tem mais razão para ter medo, e medo - seja lá do que for - é a mola propulsora da paixão.
Medo de ser pego, medo de perder aquela pessoa, medo das situações arriscadas que aquela pessoa lhe coloca, medo de que aquela pessoa esteja lhe dando menos importância do que você está dando a ela. São infinitos os exemplos.
Então me julguem porque eu não quero sentir medo o tempo todo para ter alguns segundos de prazer numa transa de vez em quando. É para isso que existem as fantasias, para dar medo apenas naquele momento entre quatro paredes, não antes ou depois dali.
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