Não sei se tem idade para parar de sentir isso. Uma cerveja gelada, The Doors arrasando na caixa de som, um computador para poder escrever, eu despreocupadamente desnuda na cama. A combinação dessas coisas faz tudo à minha volta parecer mágico, tudo parece muito melhor, muito mais interessante. Até mesmo esse apartamento pequeno e desarrumado, até o barulho da academia que está no piso de baixo, até mesmo o fato de que a minha cama treme quando tem uma aula barulhenta com mulheres suadas pulando de um lado para outro.
Me sinto uma beat. Eu já vi um mundo onde as pessoas usam a decrepitude para construir algo, para criar, para atingir níveis interessantes de percepção. Não falo de drogas, a não ser música, arte e cerveja. Todo o caos parece bonito, parece gostoso, parece um meio de acessar algo dentro de si mesmo que as regras do dia a dia bloqueiam totalmente.
Então, para mim, estar ouvindo essa música, bebendo essa cerveja e escrevendo esse texto, é como se eu estivesse preparando um belíssimo ritual que me permite olhar através de uma porta tudo que se pode ser além do óbvio, do esperado, do normativo. Padrões são um saco, não sei porque tanta gente está se apegando a eles.
Vivemos num momento de desconstrução social. Esse termo inclusive é moda. Mas estamos vivendo de verdade, não é modinha que já passa e ninguém mais vai lembrar. E eu acho isso muito foda! Lógico que está mais para uma revolução armada do que para um processo pacífico. Feminista exagera sim! Negro exagera sim! Gay exagera sim! Trans exagera sim! Cometem absurdos, se acham os donos da verdade. Mas o que se esconde das pessoas é que a verdade pode ser roubada e convertida para justificar qualquer grupo social. Não dizem que a verdade é relativa? É por isso, porque um determinado grupo começa a dominar, toma a verdade para si e a converte. A verdade é algo em constante transformação.
Essas pessoas que hoje tomam à força a verdade, que de alguma forma instalam uma ditadura onde quem é contra tem que ser demonizado, são pessoas que passaram séculos baixando a cabeça para uma verdade que ferrava eles em todos os níveis de sua vida e da sua personalidade. Negros, homossexuais, transexuais, por séculos precisaram sentir uma gigantesca vergonha de quem eram, porque a verdade vigente é de que eles eram aberrações, seres inferiores, feios, bizarros, um incômodo para olhar do mundo. Quem em sã consciência acha que isso deve ser simplesmente esquecido, ou que sequer existiu, ou que isso não deve ser levado em conta? São eles agora que comandam a agenda. E se uma coisa que podemos aprender com a História, é que oprimidos são apenas opressores sem poder.
Eu não sou gay, nem negra, nem trans. Eu não comando a agenda. Mas sinceramente, até o dado momento, tenho me mantido no meu quadrado e por isso não tenho me sentido oprimida por essa desconstrução. Acho até interessante e bonito que muitas pessoas que há 10 anos atrás se sacrificavam para se encaixar no padrão estão se aceitando do jeito que são, aos montes, e assim, de alguma forma, estabelecendo um novo padrão.
Minha filosofia é "não mexa comigo que eu não mexo com você" e assim caminha a Humanidade. Então posso sim achar alguns atos bem exagerados, bem abusivos até, mas eu sei que essa é uma forma de se impor, na marra. Quem tá incomodado, terá que usar mais do que meros argumentos para tentar fazer uma pressão contrária. Só os hippies achavam que a paz e o amor transformariam algo. Infelizmente, é a guerra que move tudo.
Então quando me perguntam de que lado estou, eu prefiro desconversar, dizer que não tenho informações suficientes para ter uma opinião bem embasada e definida. Mas isso não é completamente verdadeiro. Muita coisa eu estou apenas observando porque eu sei que minha opinião não significa absolutamente nada. Nem todo alemão era nazista, mas do que importava a opinião de um alemão contra o nazismo para um judeu condenado dentro de uma câmara da gás? Nada. No mundo inteiro atrocidades ferozes, daquelas que fazem você achar que só pode existir uma entidade demoníaca mesmo para dar coragem para alguém fazer algo do tipo, aconteceram durante a História. E a opinião de quem não comandava a agenda, de quem era contra, nunca impediu ninguém de nada. Essa noção de que se todas as vozes contrárias se unirem vão ser ouvidas é uma ilusão. Quem está no poder cala qualquer multidão, através do terror, da intimidação, do medo, da inversão de valores, de muitas formas agressivas. Sabendo disso, por que vou ficar expondo por aí o que eu acho ou deixo de achar?
Mas sempre existirão pessoas idealistas. Idealistas são aquelas pessoas que acreditam que suas opiniões são uma resistência realmente relevante. E é bem sabido que esses idealistas podem até ser um prelúdio do que um dia o mundo virá a ser, mas entre seus ideais e a concretização deles, séculos se passam. Porque um ideal precisa interessar alguém que esteja disposto a muito mais do que ter apenas ter uma opinião. Ele precisa unir multidões raivosas dispostas a tudo pela causa. Precisa ser ambicioso, deixar a moral de lado e sujar suas mãos. De lama, de sangue, do que for. Todos os idealistas bem sucedidos foram opressores e assassinos, todo mundo sabe disso.
Vendo por esse ângulo, a desconstrução social, a ditadura das minorias, até que nem é tão ruim. Ainda não está se matando covardemente em nome disso. Mas ainda é cedo.
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